Desde que a obra da minha casa começou, fizemos um pedido aos outros moradores da ecovila que também estavam construindo: “se você for descartar algum material, por favor, avise-nos. Estamos interessados no seu lixo”. Lixo que, na verdade, se não estiver misturado a um monte de outros materiais, não é lixo e quase sempre pode ser reaproveitado. Pouca gente dá valor a isso, ou porque acha que o que sobrou não é bom, ou porque tem preconceito mesmo. Afinal, casa bacana tem que ter tudo novinho, certo? Errado.
Pode parecer radicalismo de “ecochata biodesagradável”, mas para mim não existe nada pior do que desperdício na construção civil. Já reparou no tanto de coisa boa que se vê por aí em caçambas de entulho? E nos canteiros de obra, então? É tijolo quebrado, resto de cimento, madeira apodrecendo, peças metálicas enferrujando, sobra de piso e azulejo que acaba no lixo.
Esquisitice à parte, o apelo deu muito certo e já rendeu uma boa economia na minha obra. Veja só: ganhamos, até agora, uma pia de banheiro; algumas caixas de azulejo (para a área do chuveiro nos dois banheiros); uma chapa de vidro de 1,20 x 1,10 m; 25 m² de tacos de peroba, mais uns 15 m² de tacos de madeira um pouco menores, um bom fardo de bambu e uns 500 tijolos de adobe (foto) que sobraram na casa do Hiroshi, mais uns 10 m² de outros tacos de madeira (sobra da Casa Clara, nossa casa comunitária na ecovila, que está em reforma), além de várias torneiras, fios e espelhos para a parte elétrica - doados pelo meu tio, que nem é morador da ecovila, mas soube da nossa “campanha”.
Até entulho de obras vizinhas nós já aceitamos. Com isso, reaproveitamos tudo no nosso sistema ecológico de esgoto e resolvemos o problema do vizinho (que teria de contratar uma caçamba para retirar o material e acumular mais petróleo na pegada ecológica da casa). Ah, sim, e tivemos ainda algumas trocas de materiais interessantes. Com o Hiroshi, trocamos uma sobra de ferro da minha obra por alguns sacos de cimento. Da casa da Suzy, que precisava de algumas toras de madeira e tínhamos de sobra para oferecer, veio a grama para o nosso telhado verde. E o mais inusitado: o Francisco, nosso mestre-de-obra, ofereceu trocar algumas empreitadas de trabalho na nossa casa pela moto que meu companheiro estava vendendo. (Depois, como soubemos, ele a trocou com o dono de um sítio vizinho da ecovila por um boi – ou dois, não sei ao certo...não entendo de preço de gado...)
De pouquinho em pouquinho, conseguimos boa parte do material para o piso da casa e o revestimento dos banheiros, entre outras coisas. E ainda demos vida nova ao que estava condenado ao lixo. E mais: todos esses materiais, doados de coração, farão parte da história da construção dessa casa (que já coleciona um monte delas, como você já deve ter percebido). São pessoas queridas, amigas, que serão sempre lembradas em cada canto da casa.
Para que isso tudo acontecesse, um detalhe foi imprescindível: a comunicação. Acho que é isso que falta – e muito – nas cidades e também nas zonas rurais. As pessoas não sabem do que os vizinhos precisam e também não oferecem o que têm para doar. Até porque tudo parece ter ficado restrito ao mercado e às trocas que envolvem moeda. Ninguém mais pensa em trocar produto por produto ou produto por serviço, ou quiçá serviço por serviço. Ou se faz por dinheiro ou não se faz.
Mas em tempos de crise, adotar essas práticas pode ser muito benéfico e ecológico também. Lembra da grande crise que a Argentina enfrentou anos atrás? Então, na época houve uma explosão de clubes de troca, modalidade da economia solidária. É, as pessoas perceberam que tinham muita coisa sem uso em casa que, de repente, poderia servir a outras pessoas, e vice-versa. Foi um troca-troca de alimentos caseiros, sapatos, roupas, livros, discos, panelas, móveis, aparelhos eletrônicos etc., que salvou muita gente da total miséria.
Em um prédio de apartamentos, imagine a quantidade de produtos e serviços que poderiam ser trocados ou simplesmente doados. O vizinho do décimo andar está precisando de uma TV e você, logo abaixo, querendo se livrar do modelo antigo (mas em bom estado) que foi substituído pela novíssima TV de plasma... A vizinha fazendo pão caseiro para incrementar a renda da família e você comprando pão industrializado mais caro, mais viajado, mais embalado e menos sustentável. Por quê?
Vergonha de trocar roupa usada? Vergonha de oferecer sobras da reforma? As pessoas deveriam ter vergonha de comprar um celular a cada três meses! Ou de jogar fora produtos que saíram da moda, mas ainda funcionam perfeitamente! Ou, ainda, de gastar dinheiro e recurso da natureza comprando quinquilharias absolutamente inúteis!
Eu não tenho vergonha de dizer que minha casa é um mosaico de materiais usados, comprados em lojas de demolição ou doados por amigos vizinhos. Para mim, isso é um prazer e tanto, e também uma maneira de sonhar com a possibilidade de ver gente sem grana construir sua casa com o apoio de uma rede solidária de troca e doação de produtos. Casa ecológica não tem que ser privilégio de uns poucos. Se as pessoas trocassem mais seus recursos e desperdiçassem menos, haveria menos gente na miséria e mais gente no caminho da sustentabilidade planetária. Sustentabilidade não pode ser uma palavra ou conceito elitizado. Para ser verdadeira, ela precisa ser de todos e para todos.
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/165110_post.shtml
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